Junta de Freguesia

São Sebastião

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As Vindimas


AS VINDIMAS
Com o grande desenvolvimento que a mecânica tem tido nestes últimos decénios, alguns trabalhos rurais, que eram penosos e duros, foram transformados de tal maneira que, por vezes, mais parecem brincadeiras de criança.
As debulhas do trigo, as sachas do milho, a confecção da manteiga e
do queijo e os transportes de cereais ou outros artigos, que tantas
canseiras e cuidados exigiam aos nossos lavradores, são uma prova
do que afirmamos.
No entanto, nem todos os trabalhos agrícolas auferiram os
benefícios da mecânica. Alguns há que continuam a executar-se tal
como no tempo dos nossos avós.
Um dos trabalhos que pouco tem mudado, entre nós, é o das
vindimas. Tal como há cem ou duzentos anos, a nossa gente
continua a usar os mesmos processos simples e rotineiros. Julgo
mesmo que ainda ninguém se deu ao trabalho de inventar uma
máquina que desligue os cachos da parreira e os coloque no cabaz.
No geral, o nosso povo dá à vindima um carácter alegre e festivo,
considerando-a como um dos mais agradáveis trabalhos do campo,
como uma verdadeira festa de família.
Para uma vindima, é tradicional reunir todos os parentes mais
chegados e fazer convites às pessoas amigas. Tal hábito não é
moderno, pois, já no tempo dos nossos avós se procedia de modo
idêntico.
Há uns quarenta e cinco anos, havia um individuo ali para os lados
de S. Sebastião que costumava efectuar as suas vindimas de um
modo muito interessante: com a devida antecedência, encomendava
ao cesteiro tantos cestos de asa quantos os necessários para poder
distribuir um a cada neto. Claro está que o tamanho dos referidos
cestos era proporcionado às forças daqueles que os deviam utilizar.
No dia aprazado, reunia no seu pequeno pomar todos os filhos e
netos, num total de mais de vinte e cinco pessoas, e, depois de fazer
a distribuição dos pequenos cestos, dava ordem para começar a
vindima, indicando o lugar onde se devia iniciar.
Á medida que cada um ia enchendo o seu cabaz, dirigia-se até junto
da casa, a fim de despeja-lo num dos cestos de vindima (1) que ali
se achavam enfileirados à espera das uvas pretinhas e saborosas.
Era digno de ver-se esse lindo espectáculo!
Enquanto algumas mulheres iam preparando o jantar para aquela
numerosa família, as restantes, com os homens e as crianças, em
grande algazarra lá iam cortando os negros e cobiçosos cachos que,
pendentes da latada, faziam crescer água na boca...
Verdade seja que o proprietário não exigia dos seus numerosos
operários a abstenção. Á única condição que lhes impunha era a de
não andarem a tirar bago aqui, bago acolá, o que em seu entender
dava mau aspecto à uva. Se queriam comer, pegassem num cacho e
comessem-no todo...
Como o pomar não era muito grande, a vindima acabava depressa e
pouco depois do meio-dia, já todos se achavam reunidos junto à
porta da casa a espera do jantar.
Para satisfazer os apetites de cinco filhos, quatro noras e uns vinte
netos, grandes e pequenos, era necessário escolher uma ementa que
não desse muito trabalho às cozinheiras e que se pudesse
harmonizar com um improvisado trem de cozinha.
No geral, recorria-se ao peixe, fresco ou seco, cozido, frito ou
guisado, completando-se a refeição com fruta, designadamente com
as uvas que, ali perto, exalavam um cheiro a rosas...
Depois do jantar, transportava-se a uva para o lagar que existia
dentro da casa e dois ou três rapazes, de calças arregaçadas até
acima, começavam a " pisar " os negros cachos que ficariam de
"balseiro " até ao dia seguinte.
Embora a "bica" do lagar tivesse sido rolhada com uma maça verde,
sempre corria algum "vinho doce" que grandes e pequenos
aparavam com uma tijela de barro e saboreavam deliciados.
No regresso a casa, cada família levava um cesto de uvas como
presente, cujo tamanho era variável com o número de pessoas e
também com a abundância
.
L.M.D.
( in Espírito Terceirense, de Luís Viriato Drumond, págs.42-44)
(1) - Cesto de forma quase
cilíndrica, com duas asas,
destinado exclusivamente ao
serviço de vindima.